sexta-feira, 18 de abril de 2014

A estupidez das coisas

As pessoas são estúpidas.
Não acredito que sempre o foram, apenas vão optando por passar a ser estúpidas com o passar dos anos.
Não acredito que as pessoas sejam naturalmente boas e que a sociedade é que as corrompe: a criança pode ser má desde cedo e é-lo logo em pequenino quando bate no outro só porque lhe apetece; com o passar dos anos a sociedade pode torná-lo uma boa pessoa, ou o inverso.
Mas a estupidez das coisas/pessoas é algo que vem na maior parte dos casos na decorrência da vida - tirando os putos que sempre foram estúpidos, mas esses chumbaram no 5 ano e nunca mais os vimos.

Nota prévia: todos estaremos seguros de que coisas há na vida que são maravilhosas, geniais e de brilhante inteligência, não é disso que eu falo; falo antes da estupidez inerente a uma certa postura que uma generalidade de pessoas insiste em minar o seu quotidiano - e o meu pelo menos, que me vou cruzando com elas.
A estupidez que insiste em enfiar-se no Ikea num dia de sol, em comprar mil coisas nesse mesmo Ikea de que não precisa e que vai dar um trabalho imenso a montar, mesmo com instruções (sim, porque o estúpido não paga para lhe irem levar e montar os móveis a casa, o estúpido gosta de suar e discutir com a mulher porque o móvel ficou torto) ou até a estupidez que adora encher os copos de bebida no Ikea, porque é GRÁTIS.

Segunda nota prévia: detesto o Ikea como já se viu. Terceira: a estupidez ora em dissertação pode confundir-se com "chico-espertismo", mas não são, de todo, a mesma coisa.

É óbvio que a educação jogará aqui um papel decisivo. Um miúdo, educado desde que começou a andar, a ir pedir 70 brindes que estão a oferecer à porta do centro comercial, dificilmente será um adulto que paute a sua conduta pela moderação ao encarar uma qualquer fila, que vá para a praia apenas com o essencial ou que construa a sua família na base da ponderação e racionalismo. Por isso (mas não só), as praias mais lotadas são de estadia insuportável se não quisermos levar com putos em cima, berros descontrolados e tachos e tupperwares a caírem-nos em cima. Também por isso, as pessoas discutem no trânsito, porque os estúpidos acham que se forem pela direita e ninguém vir, eles ganharam e está tudo bem. Mas enganam-se, eles e nós, não está tudo bem e perdemos todos, por sermos todos um pouco mais estúpidos.

É estúpido:
- tirar macacos no trânsito à espera que ninguém veja - é um stress e há sempre um carro que vai aparecer e alguém sempre vê;
- trancar o carro duas vezes porque achamos sempre que nos esquecemos;
- fazer 5km para meter gasóleo no carro para ter desconto - os descontos são uma ilusão, porque o que poupamos numa coisa perdemos na outra e porque se fizermos mesmo esses 5km o desconto fica anulado;
- arrancar um pelo do nariz, porque dói horrores e nós já sabemos que assim é;
- dizer a um bebé para ele não gritar - ele não percebe;
- perguntar a alguém se cortou o cabelo;
- dizer ao Advogado que nos defende que não bebemos na noite anterior quando se tresanda a álcool;
- ir ao Ikea ao Sábado à tarde (ou sempre);
- chegar atrasado, seja em que circunstância for;
- achar que chegar atrasado é bom ou até pensar que é melhor chegar atrasado porque toda a gente vai chegar atrasada e não queremos então ser os primeiros a chegar;
- qualquer tipo de "wannabe" - dá sempre mau resultado querer ser o que não se é;
- beber sumos detox;
- o miserabilismo português;
- todas as "febres sociais" - selfies, acharmos que somos comediantes, acharmos que somos nutricionistas, vídeos virais e coisas afins;
- dizer que não vemos a Casa dos Segredos porque temos medo de assumir.
- o funcionalismo público português (e as "instituições" em geral).

A lista seria infindável, tem piada ir apontando a estupidez humana revelada em assuntos actuais ou momentos do quotidiano, mas deixo-a para próximos posts, isto promete. Mas já dá para ver que a maior parte destas "estupidices" ocorrem quando já somos adultos (eles, eu não sou estúpido), até porque a uma criança ou a um jovem desculpa-se tudo "são novos não pensam", agora a um adulto? Pois, mas a verdade é que são os adultos que são estúpidos, muitos deles, em mais de 60% das suas vidas, nem sempre porque a isso foram educados, mas porque foram escolhendo ser estúpidos nas mais pequenas coisas - ou até nas maiores, tudo depende, há estupidez para todos.

É por opção que as pessoas cospem no chão, não guardam o lixo em casa quando há greve dos "homens do lixo" ou atiram papeis pela janela dos carros; é por opção que se perde demasiado tempo a ver televisão, em centros comerciais ou a comprar coisas que não nos fazem falta; é por opção que perdemos o hábito de dizer bom dia aos nossos vizinhos, de escrever cartas de amor ou visitar quem sente a nossa falta; é por opção que passamos à frente de alguém na fila, compramos muita coisa e viajamos pouco ou que andamos dias e dias de olhos fechados sem ver com olhos de ver o mundo que nos rodeia; é também por opção que não valorizamos os nossos pais, que prendemos os nossos filhos em frente à televisão ou que não tiramos 5 minutos para ir ver o mar; é ainda por opção que os funcionários fazem o indispensável e não tudo o que estiver ao seu alcance, que não caprichamos, que não pomos o máximo no mínimo que fazemos ou que insistimos em ir só à praia ou passear ao fim de semana e apanhar trânsito e acabar a discutir e com os putos a berrar; finalmente é também por opção que não paramos para pensar, que desistimos de querer aprender e esquecemos tudo o que de melhor nos ensinaram e vão querendo ensinar.

Acima de tudo, acho que falta racionalismo, critério e escolha ponderada, think about it...
To be continued...


quinta-feira, 6 de março de 2014

Amores e Desamores

Não é fácil estar numa relação, acima de tudo pelo facto de ser verdadeiramente difícil conhecer a outra pessoa e aceitá-la, com todas as suas "flaws and baggage". Acima de tudo é isto.

Quantas das vezes os casais chegam ao fim de 2 ou 3 anos de relação e realizam (pelo menos uma das partes da contenda) que não se conhecem, de todo. E para amar verdadeiramente alguém é preciso conhecer bem essa pessoa, a verdade sobre essa pessoa, mesmo que não seja (e sobretudo nestes casos) difícil de aceitar ou lidar.

É necessário falar directo, papo recto, ouvir, querer saber, fazer perguntas para as quais a resposta nem sempre pode ser fácil de digerir, responder coisas que só alguém que queira amar vai conseguir ouvir. E ir ficando, pergunta atrás de pergunta, ir ficando, conversa séria e chata atrás de conversa pesada e forte, ir ficando. Quando dermos conta, o caminho já vai longo e a pessoa ao nosso lado sorri no mesmo e preciso segundo mental que nós, é aí que sentimos o verdadeiro amor.

Confessar a alguém que estamos com essa pessoa de vez, sem pensar no fim, que estamos para ficar, na alegria e na doença como nas lamechices dos casamentos, é duro. A ideia intrínseca e para nós mesmos que esta é a tal, que é aquele sorriso que queremos ver ao nosso lado todos os dias, que é aquele corpo que queremos na nossa cama, encaixado em nós, quer faça calor e especialmente quer faça frio, todas as vezes, é mais dura ainda. A ideia que esta/e é a/o tal, a pessoa com quem vamos passar o resto da vida, é das mentalizações mais difíceis de conceber.

A este propósito, dois apartes apenas: a dificuldade nesta assunção de estado reside, fulcralmente, no motivo que está na base de configurar a coisa como uma partilha definitiva e a dois de todo um resto da vida, sendo proporcional ao grau de sentimento que pomos nessa mesma coisa: se vier de dentro e for do género de arrebatar corações e apertar barrigas, então é muito difícil porque representa a concretização de que vamos investir tudo naquilo e queremos desesperadamente (ainda que apaixonadamente) que dê certo; se for por motivos menores, então, como diz o outro, é "pinners" e para esses a leitura deste texto já vai demasiado longa.
Por outro lado, o ideal de vida partilhada, a dois, é algo que exprime não só uma conveniência social, de IRS's, de idas às compras, mas muito mais que isso, um caminho partilhado, duas estradas paralelas que são uma só na maior parte dos dias e das noites. No outro dia, via um filme que a certa altura fazia esta pergunta "como é estar casado?" e sinceramente adorei a resposta, ilustrada com imagens de festas de anos, de férias, de pequenos nadas, mas em que o que mais se salientava era a troca de olhares entre o casal, a cumplicidade e a linguagem invisível..acho que é precisamente isso..

Amar e não desamar é decidir que se vão fazer todos os esforços para resolver as coisas, mesmo quando não nos apetece nada, que vamos dar um jeito, ouvir, em vez de desaparecer e fugir à mínima coisa que corre mal ou à mínima discussão.
As pessoas discutem, é isso que elas fazem, mas é preciso amar de verdade e ser inteiro para querer construir algo, por mais pequeno que seja, de cada vez que o fazem, quando se der conta, já temos um império de castelos com todas as pedras que cada discussão foi trazendo.

Também não se diga que a idealização de ficar com alguém para sempre custa muito, porque não nos conseguimos satisfazer com uma pessoa apenas para o resto da vida, porque isso é a maior inverdade de sempre e uma falácia que os mulherengos (os maus) usam. Tal desculpa é a mera técnica da fuga, do não envolvimento e do "isto é óptimo mas tem calma que eu não quero nada sério".
Contra mim falarei ao dizer isto, mas acho que as pessoas receiam envolver-se, têm medo de se apaixonar, vivem amores à medida e vão gostando. Estão juntas, não amam, vão ficando, não namoram. Tal como já li e escrevi em tempos, falta amar sem rede, perder-se nas horas por paixão, perder-se de amores em casa ou no fim do mundo. É isto que falta.

Enfim, fascina-me, terrivelmente, como as pessoas vão do gostar loucamente, para o não gostarem nada, magoa muito, dói física e psicologicamente, muito. Talvez por isso as pessoas quando sentem que a outra as vai deixar, se antecipam e acabam primeiro, para não serem deixadas, ser deixado é das piores dores que pode haver, o vazio, a perda, a desorientação.
E é isto, mais um, menos um, outra história de amor que perde e desta/deste gostávamos mesmo. É este o percurso normal de um amor/desamor. E quando pensamos e realizamos que tudo acabou, que nunca mais vamos voltar a ver aquela pessoa da mesma maneira, sentada no nosso sofá, no banco do carro, na cadeira da esplanada a ver o mar, é terrível. Claro que nos vamos cruzar por aí, conversa banal, conhecer o novo namorado, apresentar o nosso novo amor, agindo como se nunca tivessemos estado juntos e lentamente pensando cada vez menos nela/nele, até ao esquecimento total. Quase total. Sempre o mesmo ritual, acaba, começa, sair e beber, conhecer e brincar, conhecer uma, enganar o outro, esquecer um e encontrar outra e depois após meses de vazio começar a procurar novamente o "true love", mais ou menos desesperadamente, até o encontrar e acharmos novamente que esta é a tal, até que uma nova separação o levar também.

"There’s a moment in life where you can’t recover anymore from another break-up. And even if this person bugs you 60 percent of the time, well, you still can’t live without him. And even if he wakes you up every day by sneezing right in your face, well, you love his sneezes more than anyone else’s kisses"...

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

#fuckcancer

Já lá vão 3 anos desde o dia em que tudo deixou de ser como dantes, já lá vão 3 anos desde que o cabrão do cancro entrou nas nossas vidas...

Recordo como se fosse hoje, o dia em que recebi a chamada que mais me apertou o estômago; estava sol em Cascais apesar do frio e nada fazia adivinhar o que a visita da mãe ao médico iria trazer; a visita e tudo aquilo que se sucedeu desde então, um número infindável de outras visitas, de angústias e incertezas, de saber que se está doente, não fazendo ideia se alguém vez teremos cura.

Quando o telefone tocou a voz serena, como sempre, da minha irmã, não fazia prever tudo aquilo que a expressão "confirma-se, a mãe tem cancro", iria introduzir nas nossas vidas... De coração apertado e lágrimas nos olhos, voei para Lisboa, a voar para o abraço pesado a três, sabendo cada um de nós que aquilo ia dar trabalho, sabendo os 3 que íamos ter de lidar com um monstro que não conhecemos a cara, do género dos "bosses" de fim de nível, nos jogos que jogávamos quando éramos putos, um monstro que se ia apresentar a todos os "níveis", osso duro de roer.

Parece cliché mas é a mais pura das verdades, quem "deixa" entrar o cancro na sua vida, muda a sua forma de nela estar, a cabeça muda, as prioridades redefinem-se e tudo deixa de ser como até aí.

Podia enfatizar as centenas de idas ao médico, as mil perguntas ao Dr., "se está tudo bem", "quando vai tudo terminar", "qual o tamanho do bicho"; dúvidas, perguntas, incertezas, questões, horas sem sono a pensar em como manter o sorriso, quando o cérebro chora, em fazer das fraquezas-forças, em dizer que o coração está bom e que "está tudo bem", quando temos tantas dúvidas do que vai ser de nós, em que só nos apetece dizer todas as asneiras do mundo, bater em toda a gente e em que temos medo, muito medo...mas está tudo bem.

Podia falar dos milhares de horas a ouvir desabafos, a responder às perguntas da mãe que nada sabe, que tudo quer saber e nós sem saber o que saber ou o que pensar ou o que dizer.

Podia colocar o foco na força que é necessária - "tu tens de ser forte" -, mas nem sei o que isso significa, que tenho de ser forte eu sei, todos sabemos, é óbvio, mas se fossemos fortes não ficávamos doentes, a não ser que "temos de ser fortes", signifique que temos de criar força onde ela está precisamente a falhar, uma ordem impossível e utópica ou mais uma expressão feita que, no fundo, de nada serve.

Podia ainda enaltecer a capacidade de continuar a trabalhar, minha e da minha mãe, de continuarmos a passear, a rir, a colocar o Natal na mesa, a ir de férias, de continuar a treinar para lhe apontar os dedos quando ganhamos a tal medalha (é bonito e o pavilhão agradece), entre muitas outras coisas que sempre continuámos a fazer.

Podia recordar as horas de espera, quase sozinho, em pleno Hospital de São José, esperando apenas para ir, já de madrugada para casa, mas só depois de ver a cara dela após a cirurgia, só para a ver sorrir (drogada e serenamente) e garantir que a voltaram a trazer "inteira".

Podia também recordar as manhãs e tardes e noites passadas na quimioterapia, na radioterapia, nas consultas de toda a espécie, onde todos os muitos médicos que nos foram "passando pelas mãos" pareciam personagens de novela que iam sendo substituídos enquanto nós íamos ficando a ver o enredo.

Ou o abraço forte de cada vez que ia (e vou) para fora de Lisboa, para longe dela.
Ou a mão apertada enquanto ela rapava o cabelo pela primeira vez, com as lágrimas a caírem-lhe pelo rosto enquanto eu olhava para ela e para o espelho, de expressão imóvel, forte, mas com vontade de vomitar.
Ou os sorrisos forçados quando ela falava duas horas sobre a doença sem parar.
Ou as lágrimas que limpei quando saí sozinho do gabinete do médico, a custo de corridas no corredor do hospital para o vento secar a cara, depois de mais um revés, para voltar para junto dela de cara imperturbável e pronta a entregar o abraço certo.
Ou o sorriso dela quando lhe disseram que "estava boa de novo".
Ou o choro quando nos disseram que "estava doente outra vez".

Enfim, podia também partilhar as horas de espera, à porta dos tratamentos, da fisioterapia, das notícias boas, das notícias assim-assim, dos minutos para voltar a ver o sorriso dela, das horas para tudo isto e aquilo ter passado...

Mas não. Mas sim. O cancro é tudo isto, é contradição, mas é muito mais que apenas a soma deles todos. O cancro é inteiro, é uma entidade autónoma e superior à soma de todos estes sofrimentos. O cancro é fraqueza, enfraquece, desgasta, corrói, definha, provoca exaustão, saturação, raiva. Provoca tudo e não provoca nada. O cancro não se define por definição, é traiçoeiro, matreiro, silencioso. Não sei o que é o cancro, mas sei que ele dói como a merda. É isto.

Por tudo isto, mas não só, em mais de 3 anos de doença, que já foi e já voltou, que julgámos poder ser constipação mas que já aceitámos como gripe crónica, aprendemos que a vida é curta, que pode ser ainda mais curta e, por isso, mas também não só, que sejamos inteiros enquanto durarmos, pondo no mínimo que façamos o melhor que somos e podemos. Coadjuvado pela própria doente, que é ela sim a verdadeira heroína deste conto (sem fadas), aprendi a aceitar o cancro nas nossas vidas, a conseguir ser pleno no sorriso que antes rasgava de coração apertado. Tudo está bem enquanto estiver realmente bem e hoje podemos dizer que tudo caminha para mais uma vitória contra o monstro - 2-0 :)

E vamos dormir que amanhã é dia de almoçar com a mãe!

Até breve


Morreu Eusébio

(texto retirado do meu anterior blogue e escrito no dia em que Eusébio morreu)


Morreu Eusébio. Via à pouco na televisão as imagens no Estádio da luz, em que simbolicamente o caixão, dando seguimento a um pedido de sempre do Pantera Negra, dava uma volta à sua casa, aquela onde nunca jogou mas que continuará sempre a encantar e emocionei-me, de verdade.
Sou do FCPorto, amante incondicional do azul, do norte e do Porto, mas tocou-me a forma como um estádio chorava a perda da sua última e derradeira referência; o hino do Benfica que nada me diz, teve ontem um sabor forte, de perda colectiva da última grande lenda viva e Portugal ficou ontem, efectivamente, mais pobre.
Na verdade, enquanto o carro funerário percorria as ruas da capital, aplaudido por milhares de pessoas, uma cidade e um país despediam-se daquele que, em tempos, chorou por todos nós e essa é a maior lição que poderemos tirar, em jeito de reflexão, deste triste dia para Portugal: quem vive intensamente, mais cedo ou mais tarde, receberá, na exacta proporção, todo o carinho e reconhecimento que lhe são merecidos. E não se diga que devemos valorizar as pessoas enquanto cá andam, entre outros infindáveis disparates que sempre se ouvem nestas alturas de enlevo nacional, porque, efectivamente, as coisas sempre chegam no seu momento; pode não ser o certo, mas é o momento que lhes foi reservado, por um sem número de diversos e variados factores.
Por outro lado, o sentimento de perda é, provavelmente, dos mais fortes e difíceis de enfrentar. Vamos demorar a superar a morte de Eusébio, tal como demorámos (quase tanto) a superar a morte de Amália, tal como um apaixonado demora a ultrapassar um desgosto amoroso ou todos demoramos a superar a partida de um ente querido.
De facto, a perda e os finais - de vida, de amor, de ligação, de permanência -, são sempre tramados e representam, a meu ver, verdadeiras mortes, quando não o são mesmo até. Uma parte de nós ficará sempre com aquela menina que nos roubou o coração e não o devolveu, na cidade onde fizemos Erasmus, naquelas férias inesquecíveis, com aquele amigo que gostaríamos de ter à distância de um sms e não está já entre nós...
Por isso, façamos luto, honremos todas as mortes de que são feitos aquelas que cá andam para levar um pedaço forte deste Mundo, não tenhamos medo de chorar, de levar tempo a esquecer, de só voltar, efectivamente, a sorrir, quando fizer sol.

Até já Eusébio!

Boys don't cry

Em boa ou má altura, decidi lançar este novo recanto onde posso ir deixando textos, pensamentos, fotografias, vídeos e pedaços do que daqui vou levando.
Boa altura porque é sempre bom quando paramos para pensar e escrever; má porque a inspiração vem das dificuldades (como sempre). Na verdade, acho que ninguém escreve quando está totalmente feliz e tudo corre de feição; de facto, tal como qualquer boa história não começa quando decidimos comer uma salada, a boa inspiração também não aparece quando nos saiu o euromilhões, quando tiramos a melhor nota da turma ou quando nos oferecem o bilhete para o concerto mais desejado.
Salvo melhor opinião, é da tristeza e instrospecção necessária para encarar certas adversidades, que nascem os pensamentos e palavras mais acertados, até porque na maior parte dos casos, qualquer acontecimento gerador de euforia induz mais facilmente a uma corrida para os nossos amigos (e para o bar), do que para a secretária.

Assim sendo, sem antecipar o que vou aqui deixar a partir de agora, textos escritos e nunca publicados ao longo do tempo, mas também "olhos" actuais sobre o que for acontecendo, este cantinho, tal como o próprio nome sugere, pretende ser o meu "diário de viagem"; não apenas das viagens físicas, mas também, e sobretudo, das espirituais, que oscilam, invariavelmente, entre prazeres e necessidades, numa subjectividade rica de interesse e plena de pontos polémicos, variando psicoticamente entre o dever e o ter, o prazer e a obrigação, a necessidade e a evasão.
Por outro lado, a nível estritamente pessoal, a nome faz também sentido, na medida em que traduz de forma simples e óbvia, esta minha nova fase, devido ao facto da minha morada se situar, efectivamente, entre a freguesia dos Prazeres e das Necessidades, pelo que, esta mudança física e representativa da nova fase de vida, acaba por traduzir este novo capítulo de amadurecimento escrito e teleológico.

E a nível introdutório é tudo, sejam bem-vindos e até breve!